sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Daniela Araújo - O memorável debut

A espera foi longa. As notícias da produção nos vinham através do Twitter, do Facebook e do blog da cantora que, com a maior paciência do mundo, lidou com a cobrança natural dos que acompanham sua carreia.
 O disco da Daniela é um desafio muito grande para qualquer um que queira abordá-lo de maneira crítica. Lembrando que nosso fundamento crítico não se baseia no senso comum que toma o "criticar" como algo que diminui a obra somente apontando defeitos, falhas; nossa crítica pode ser resumida na pequena máxima "Discursar sobre a Obra sob Critérios". 
Muito bem, quais são estes critérios?
Se um critério puder ser qualidade técnico-musical, então o disco de Daniela Araújo passa com louvor! O primor da produção em seus aspectos musicais é assombroso para os padrões das produções cristãs brasileiras. O cuidado com os arranjos, com as captações (especialmente a captação vocal!), as execuções dos muitos músicos evolvidos (incluindo uma sessão de cordas captada em Praga), o cuidado com uma mixagem de tirar o fôlego do já celebrado neste blog Fernando Menezes, a bela finalização do Master Final e a arte do Lucas Motta compõe um disco realmente notável e com um sabor anacrônico. Sim: anacrônico! Não "sinto este sabor" num disco há muitos anos. Não é coisa deste tempo nem coisa do passado, mas coisa que parece uma fresta na sonhada eternidade.
Outro critério de alta relevância (pelo menos para mim quando ouço um disco) é: Se eu tirar TUDO, essas canções "param em pé"? Também neste quesito Daniela passa com louvor! Canções testadas, submetidas ao público só com voz e violão, canções trabalhadas com zelo de ourives a fim de que tudo, bem medido e bem pesado, pudesse não ser uma anuência à nova moda das "musiquinhas cabeça" carregadas de críticas e formulações teológicas complexas de teólogos da moda. As canções de Daniela (e a cantautora só não assina duas faixas do disco...) são pra hoje e sempre! Com fortes cores da teologia de sua Igreja, as canções logram profundidade e leveza. Quem faz canção sabe da dificuldade de atingir o x da questão nesta equação.
O disco é o debut em carreira solo de uma das maiores cantoras de sua geração não só no âmbito da MCC. Daniela poderia perfeitamente caminhar lado a lado de nossas maiores cantoras da MPB sem deixar a peteca cair! Ela é indefectível ao vivo mas não nos ofereceu um disco chato e enfadonho de virtuose. Foi além e buscou a interpretação ao invés da verborragia fraseológica dos vocalistas que se deixam influenciar demais pela nossa Black Music de segunda mão (que, como já comentei antes, imperou por aqui até pouco tempo atrás com mais nota do que música).
Não ousaria fazer um comentário track-by-track deste Disco. 5 textos "morreram" enquanto militava neste formato e decidi apenas sublinhar algumas delas e seus encantos.
Daniela em estúdio.
O disco abre com milímetro, a pequena fenda por onde a cantora adentra na Eternidade. Quem esteve no lançamento viu um vídeo incrível que emoldurou lindamente a canção na abertura daquele show.
dimensão da luz é um presente! Uma interpretação visceral da cantora que mostra que a questão não é quantas notas, mas quais notas. Virtuosismo REAL e surpreendente da moça.
interlúdio - jugo suave e jugo suave merecem um destaque para o arranjador "prateleira de cima" que é o Lua Lafaiete. Não se ouve mais tão facilmente o que soa nestas duas faixas. É uma grandiloquência bem colocada no Interlúdio e uma singeleza difícil de atingir nas cordas da canção. A letra é um alento, um afago poético sem solução fácil, mas apontando para uma imersão total em Deus. Coisa linda de ouvir.
Meu último comentário a uma faixa do disco tem que ser sobre volta. Existem alguns filmes e algumas Sinfonias que me provocam reações físicas e emocionais intensas demais e preciso me conter para não deixar evidente o meu êxtase. A afirmação é exagerada, mas é só assim que consigo expressar aquele grito de "Volta!" que a Dani dá depois do Coro masculino na secção intermediária da canção.

Em suma, este disco é um problema sério na vida da Dani: O que lançar depois disso?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sou Livre - Rebeca Nemer

          No início das minhas interações via Twitter com a cantora, diretora de arte e CEO da Salluz, ela convocou os song-writers de plantão por lá pra criarem canções infantis sobre personagens bíblicos para um projeto novo (ainda inédito). Abelhudo que sou, disse o meu “Eis-me aqui!”. Na ocasião escrevi duas canções: o “Blues do Jonas” (ainda inédito) e à partir uma ideia simples na qual já trabalhava a meses, “Pequeno Salmista”. Enviei esta para a cantora (e hoje, amiga querida) e fiquei feliz com a boa recepção que ela teve. A canção é a 10ª faixa do “Sou Livre”, álbum lançado na ExpoCristã de 2011.

            De início, fiquei receoso em escrever sobre este disco, principalmente pelo meu envolvimento como autor de uma das faixas, mas depois de inúmeras pessoas me cobrando novos reviews aqui no Blog, decidi que o primeiro do ano deveria ser o “Sou Livre” da Rebeca Nemer.

            O disco é um pouco diferente dos trabalhos anteriores da cantora. É voltado a um público mais abrangente. Sem deixar de lado canções infantis, o disco alcança também o público teen com faixas dançantes e eletrônicas, como a “Eu Tenho Algo” que abre o disco com um som “gordíssimo” e vocais com aquele trato eletrônico over-tunados. A 2ª faixa é a linda canção “Eu Sou Livre” com participação especialíssima de Paulo César Baruk e uma atmosfera de louvor de Igreja mesmo. Uma canção acessível e muito bem feita. “Meu melhor amigo” é a contribuição do Samuel Mizrahy ao disco da Rebeca e o resultado é uma canção com a marca da alegria do Samuel. Os violões e guitarras da faixa estão ótimos e são obra do Cacau Santos, que sempre acerta na mão! “Minha Escolha” é a primeira balada do disco. De autoria de Leila Francieli, a voz da Rebeca acolheu muito bem a canção, que não sai em momento nenhum de um clima singelo e confessional. “Quero Me Mover” volta ao clima mais dançante e aqui começa a aparecer bem pronunciada a contribuição de Fernando Menezes que mixou o disco. As escolhas de efeitos, os planos de panning e tudo mais que é pertinente à mixagem ornam por demais o disco como um todo. Este traço do álbum segue na faixa 6 –“Decoreba” de Edson Feitosa que é uma diversão daquelas. O público infantil agradece e os mais velhos também “se jogam” com a desculpa de que é pra “acompanhar os pequenos”. Todo mundo liberado! A faixa é divertida e ponto!

            “Pororó” – a primeira vez que ouvi a faixa 7, a ficha não caiu. Foi só em conversa com alguns amigos que descobri que a música já foi hit de acampamento metodista lá pelas bandas do Rio de Janeiro. O que eu achei da faixa inicialmente é que era uma “doidera doida” daquelas que são a cara do produtor do disco. Um beat meio “Black Eyed Peãs” e tal.

            A participação de Adhemar de Campos na faixa seguinte num tema africano gravado com um sabor jamaicano está muito bonita. Essa canção mostra o talento que o Baruk tem como arranjador. É muito repertório, muito conhecimento de estilos e linguagem musical. Isso não é coisa que se vê por aí à rodo não... “I Can Do” faz o retorno pro pop-rock com aquele sabor britanizadinho (deu pra entender isso?). As guitarras do Alexandre Mariano falam alto e junto com os baixos do Aposan.

            Agora chegamos naquele temido ponto do conflito moral: o que dizer da faixa de minha própria autoria? Bom: pra mim é a melhor do disco! É uma coisa fantástica! É demais... Hora do recreio à parte, vamos ao comentário que não pode calar: O arranjo do Baruk aqui foi um presente de Deus. Uma das maiores alegrias pra um autor é ver seu trabalho tão bem tratado assim. A canção foi escrita para a Rebeca. Para a voz dela. Acredito que isso tenha contribuído para o resultado realmente bonito da faixa que aliás é de uma economia notável! O vocal ao fim da faixa é inusitado. Ousam-se paralelismos que dizem por aí serem proibidos, inclusive... Enfim, aqui tem a coisa pessoal gritando. A faixa foi um presente!

            “Morto ou Vivo” de Leila Francieli volta ao climão eletrônico, mas traz uma letra com conteúdo, coisa que não é muito comum no estilo dos “I got a feeling” da vida... E nessa escalada de conteúdo chegamos à canção do Hélvio Sodré. “Não Vou Mais Brigar” que abre de Ukulele e fala LINDAMENTE do tema famoso hoje em dia que é o tal do Bullying, chamando ele brasileiramente de “brigar”, chama de “empinar o nariz” e coisa e tal culminando no perdão e na amizade. A canção é a cara do Hélvio e a voz dele deu um blend daqueles com a da Rebeca. O vocal de fundo, na maioria do disco a cargo da dupla Daniela Araújo e Felipe Valente traz a marca do bom arranjo e, de novo, da economia. O disco fecha com um reprise de “Eu Tenho Algo” arranjado por Jessé (que também arranjou “Pororó” e “Morto ou Vivo”) e é uma gordura só.

            A já mencionada mixagem de Fernando Menezes é coisa de primeiro mundo e prova que está cada vez mais desnecessário sair do Brasil atrás de expertise nessa área e a Masterização é do Luciano Vassão, que se eu continuar elogiando aqui vai parecer coisa arranjada, mas é, como sempre, digna de nota.

            O disco vem em digipack que eu particularmente gosto muito por causa da coisa táctil: me lembra a época que eu comprava vinil... A arte do disco é de Lucas Motta (olho nesse menino!) e tem como assistente de fotografia a melhor cantora do Brasil na atualidade. Enfim, o disco é ótimo e conta com uma equipe de gente boa contribuindo que garante sucesso de público e crítica!



P.S.: Este artigo contou com a consultoria especializada de Giulia e Giovana. Duas priminhas gêmeas de 4 anos que, quando perguntadas sobre qual é a faixa preferida respondem em alto e bom som: “TODAS!”

Sobre o Humilde Bloguinho em 2012...

    Ano novo, vida nova, né?
    Ok, sabemos que não é bem assim: continuamos os mesmos e o que pode mudar é a nossa postura na medida da nossa decisão e compromisso com ela.
    Não tenho dado conta de alimentar o Blog com frequência e além disso, tenho recebido comentários sobre certa parcialidade em meus comentários e na escolha do material que comento. Vamos endereçar este assunto: eu comento o que ouço! Eu ouço o que compro! Eu compro o que dá... Está bem assim? Não me sinto obrigado a comentar todo e qualquer lançamento do Universo Gospel até porque não penso que seja esta a vocação deste espaço. Aqui a banda toca de um determinado jeito e é assim que dá pra ser... Não vou ficar comentando disco "requentado" sem algum caldo artístico que o sustentem ou algum outro interesse de conteúdo que eu tenha.
    O que podemos esperar este ano então?
    Talvez não muito... Assumi um compromisso do tamanho do Universo em 2012. No final do ano, com o processo seletivo quase no fim, inventei de pleitar o ingresso na Pós-Graduação. Resultado: começo um mestrado em Ciências da Religião.
    Com certeza este é um processo que demandará tempo, e tempo livre que é o que eu usava para alimentar este espaço! Não quero abandonar a prática de comentar álbuns porque acredito que isto é mais um exercício pessoal do que qualquer outra coisa. Faço de bom grado e especialmente quando há o que elogiar. Não sei a serviria um espaço pra trollar o que acho ruim e/ou mal-feito!
    Creio que, numa perspectiva mais acadêmica, não me afastarei da cena musical até porque o tema da minha dissertação permeia as relações entra a Arte e o Sagrado em Liturgia (ou algo assim! hahahaha -Creiam-me tudo pode acontecer com um tema de mestrado no meio do caminho!) e estar em contato com o repertório, com o que se canta nas Igrejas e o que tem figurado em nossa escuta musical como cristão pode ser útil de lá pra cá e de cá pra lá. Estou empolgado com a nova empreitada e conto com a torcida e orações de vocês!
    Minha presença nas Redes Sociais seguirá na medida das possibilidades e da minha capacidade de multi-tasking!
    Todos saberão o que estarei aprontando neste ano!
    Paz e bem neste ano que se iniciou!
    Jonas Paulo

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Show de Lançamento - Daniela Araújo

Ontem (15/12) no Espaço Nova Semente aconteceu o show de lançamento do disco de estréia de Daniela Araújo a Sony Music Gospel. O disco é um achado! Estou prometendo um review aqui há muito tempo, mas o fim de ano ainda não permitiu a atenção que o disco não só merece como precisa, exige. Quero apenas registrar aqui algumas considerações sobre o evento de lançamento. Deixemos o disco pra semana de recesso antes do Natal... É impossível, no entanto, não adiantar aqui algumas de minhas impressões sobre o disco, seu repertório e sua primorosa realização.
Tivemos um show fantástico! Daniela não caiu na tentação juvenil de querer tocar o disco na íntegra e nem de realizar absolutamente tudo que se ouve no disco. Nada disso! Ouvimos versões ao vivo do que está no disco. Nada de playbacks cheios de todas as magníficas cordas, dobras e afins do disco e que fazem todo o sentido no disco, mas ao vivo não teriam o fator imponderável de uma interpretação ao vivo. A banda (um show à parte!) tocava com intensidade e pressão acompanhando em total sinergia a cantora. Para a responsabilidade de apoiar a cantora nos vocais, contamos com um time de primeira linha formado por Paulo Zuckini, Jéssica Augusto e até o marido da estrela da noite, Leonardo Gonçalves.
Daniela apresenta um nível técnico incomum, realizando com precisão as belas frases musicais concebidas para o álbum. O virtuosismo de Daniela não se torna uma distração, mas orna com muita beleza as canções. É tudo à serviço das canções. Daniela se divide entre foco total e entrega total, e nessa equação, a cantora nos brinda com muita emoção. Mas muita mesmo! Tanta, que nem a cantora, nem a banda, nem a platéia conseguem conter  lágrimas e entusiasmo. A presença da cantora no palco é natural, nada é forçado e ela até se permite estar à vontade (coisa perigosíssima para performers de modo geral...). Fico imaginando que o que ouvi ontem poderia acontecer em qualquer palco, de qualquer festival, de qualquer parte do mundo e seríamos muito bem representados.
Destaque também ao que aconteceu numa pequena pausa que a cantora fez, dando lugar ao duo Leonardo Gonçalves/Samuel Silva. O Leonardo é figura conhecida da cena e já fora dela (até Ed Motta já se rendeu ao talento do exímio cantor). Quero destacar o talento incomparável deste menino que toca piano como poucos. Samuel Silva é um gigante, e sem esforço surpreende como surpreendem os realmente grandes. Toca bonito, toca difícil, toca o inusitado, o "fora da caixa" sem soar arrogante, sem parecer querer aparecer: faz porque faz, porque ele é aquilo! Sei que a noite foi da Daniela, mas Samuel merece destaque.
Daniela é uma artista que estréia com um perigoso álbum. Um álbum que bem poderia ser seu 3º trabalho. é bom ficarmos atentos: não acho que essa moça tem tendência a baixar um milímetro sequer da qualidade nos próximos trabalhos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Prontos Para a Batalha - Coral Resgate

    Infelizmente, o 2º álbum do Coral Resgate para a Vida pela Salluz continua com o mesmo defeito do anterior: O Coral não vem junto! - É bom ouvir o disco do Coral da Igreja de Deus em Cristo da Zona Leste de São Paulo, mas ouví-los e vê-los ao vivo é uma das maiores experiências que a música pode oferecer a alguém. É a musicalidade sensível e poderosa dos cantores aliada a uma performance simplesmente incrível. Apesar do Coral não ir até sua sala pra você conferir isto que estou falando, o disco captura de forma ainda mais encorpada do que o primeiro disco o espírito do Coral. E a sonoridade está mais “coral”. Mais “timbrão” mesmo. Do ponto de vista da produção musical, eu já me declarei admirador da dupla Jeziel Assunção e William Augusto pessoalmente. Esses dois são ninjas de primeira linha, jogando em diversas posições sem que isso comprometa o resultado final do trabalho. Assinam instrumentos (destaque para o contra-baixo GORDO de sempre do William), arranjos e composições no álbum.
    Se a influência do 1º álbum é “churchy” e apimentada com The Comissioned, neste a coisa se desenrola com sonoridades que remetem muito a concepções de arranjos de base à lá Fred Hammond (como nas duas primeiras faixas que abrem o disco prometendo verdadeiras pancadas na orelha do ouvinte) e sonoridades vocais mais trabalhadas no tempero do Kirk Franklin. Até uns arranjos de cordas me lembraram muito o ótimo álbum Hero do Kirk como o da lindíssima canção “Comigo Está”. O disco segue demonstrando um bela arquitetura com o melhor do Gospel moderno. Um Black Gospel cheio de guitarras e devidamente influenciado pelo Classic Rock (SIM, penso ser daí que essa meninada tipo Dietrick Haddon tem dado uma guinada na textura do Black Gospel, que andava meio cansado de suas fórmulas, mas de repente sou só eu que penso assim...). Na sequência ouvimos “Me levantarei” que além de linda, belamente cantada pelo conjunto coral e tudo mais, tenta nos enganar com o uso incidental do chorus de “More than anything” do Lamar Campbel que o Coral canta bastante ao vivo, MAS declaro aqui: isso não basta, meninos! Gravem esta versão. Se vocês estão esperando para incluí-la no set list do DVD ao vivo (coisa obrigatória!) eu relevo a falha… Bela balada!
    “Não vamos desistir” traz um dueto explosivo dos irmãos Gabriel e da Jéssica. Meninos e meninas, ouçam o que eles fazem e se um dia der pra ir a um culto ou evento Gospel com o Coral prestem atenção no que eles fazem. É prova de que o Black nacional superou finalmente aquela chatice de melismas descolocados pra entregar leads bem feitos, bem desenhados e bem riffados. É uma aula de canto concentrada numa faixa! O Coral canta o refrão com uma energia absurda e nesta hora, pensei que o tinha gente cantando dentro do carro, tão envolvente é o resultado da faixa finalizada. A breve “O céu é real” é uma mensagem forte colocada com uma dose grande doçura vocal. Sem medo de errar, Melk Villar foi escalado pra iniciar abrir a canção. Olho nesse menino… “Escolhido”, de Marcos Rodrigues, é uma daquelas canções que você vai querer ouvir repetidas vezes, e o Nando Vianna entra solando com uma maturidade vocal e musical simplesmente assustadora! Novamente o arranjo instrumental veste uma canção do Marcos com maestria (tem música dele no 1º disco do Coral). Quando Jéssica Augusto entra na brincadeira depois da modulação, o que já estava bom demais chega a um ápice maravilhoso.
    “Molda-me”, de Alexandre Malaquias (ninja da composição, poeta, músico excelente e alguém com quem se pode aprender muito sobre como construir boas canções) é uma canção especial demais. Chego a ter certo temor em escrever sobre ela… Trata-se de uma canção que sintetiza alguns ideais que tenho pra minhas próprias composições: simplicidade, profundidade e poesia de alta qualidade aliada a conteúdo bíblico. O arranjo, a interpretação do Coral, a sutilieza das cordas, tudo orna e seria suficiente, mas como o disco sempre dá um passo a diante, podemos ouvir o solo da Ellis Negress e aquela sessão coral aos 2:35 da faixa que é cavernosa. Uma faixa incrível e, para mim, o auge do disco!
    “I just need you” é um problema! Eu explico: sempre tem alguém que me fala: “Ai, Jonas… Pra que essa mania desses Corais de cantar em inglês?” Em primeiro lugar, o Coral Resgate não é desses Corais… Em segundo lugar, a igreja de origem do Coral Resgate para a Vida é a Igreja de Deus em Cristo em Itaquera, identificada com a sigla COGIC3 (Church of God in Christ - e o número 3 tem a ver com a divisão distrital da Igreja aqui no Brasil segundo o que me explicou o elder da Igreja e meu amigo Wellington Primo). Enfim, trata-se de uma Igreja jovem aqui no Brasil mas uma das primeiras Igrejas Pentcostais estadunidenses sob a influência do avivamento da Rua Azuza. A presença de pastores e cantores da gringa na Igreja é grande e pelo que pude observar, lá se cresce sob esta influência musical e até cultural, MAS eles são brasileiros sim! Não é uma questão de “pagação de pedágio” para a cultura estadunidense, mas sim uma demontração pra lá de genuína de como são influenciados pelo Black Gospel e até de como reconhecem de onde vem e qual é sua principal influência estilística. Ufa… Dadas as devidas explicações, sigo: “I just need you” é uma bela canção do produtor William Augusto que conta com os vocais de Michael Santiago arriscando-se a gravar um lead tão característico de momentos espontâneos em Igrejas pentecostais negras americanas em inglês que não é sua língua mãe. Ele dá conta do recado com estilo e muita precisão! Já dei aula de inglês pra defender uns trocados lá pelos meus 18 anos e se fosse prova oral eu dava 9,25!
    “Justificado pela graça” conta com um solo belíssimo da minha amiga (e colega de tempos de ULM, mas pelo amor de Deus, esconda aquelas fotos!) Dyani Primo e sua voz única cheia de sensibilidade e precisão! A canção é um belo 6/8 super Gospel com uma sessão com cara de ministração ao vivo da Denise Mariano com o apoio da banda, do Coral e do Hammond com sabor de Igreja pentecostal de verdade!
    “Medley” fecha o disco com a voz espetacular do Melk Villar. É um timbre característico, um fraseado brilhante e uma voz inteira e totalmente dominada pelo seu dono no grave, no médio, no agudo e naquela região que nem deve ter nome ainda que ele atinge… Uma falta de senso de noção vocal! Vai indo, vai indo, vai indo e quando você ouve, pensa “Não… Ele não vai fazer isso… Ops! Ele fez…” -Melk é um jovem mestre de sua arte.
    A finalização do disco é ótima. Mix do Luciano Marcian, clara com tudo aparecendo e dando lugar para as dinâmicas pensadas pelos produtores e aquela Masterização já elogiada aqui em diversas ocasiões assinada pelo “pai da matéria” Luciano Vassão. A arte do disco parece ter sofrido um pouco com a impressão do encarte… Não vi a imagem divulgada pelos canais da Salluz reproduzida com justiça no encarte físico quando peguei o disco na mão, mas nada que desabone a concepção e nem te impeça de adquirir este belo álbum do Coral Resgate para a Vida, e se não for pedir muito: Que venha o Ao Vivo!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Música aos vivos!

Bem, amigos...
Que fim de semana!
O último sábado foi marcado pela primeira apresentação em solo brasileiro do grande singer/song-writer/producer/bassist Fred Hammond e eu quase não fui ao show! Quase MESMO! Pensei assim: Show de graça, ao ar livre? Isso tem tudo pra ser uma furada daquelas... Externei o sentimento à minha digníssima esposa e ela fez uma cara que disse tudo. Era pra ir! Fred Hammond, pelo que me lembro, me foi apresentado pelo amigo baterista Daniel Wesley quando eu ainda me encantava pelos coros de Kirk Franklin e da cena Black metida a besta daqui de São Paulo, uma galera que naquela época tinha muito mais pose do que qualidade pra mostrar, salvo raras exceções como Silvera, Rogério Sarralheiro e Paulo César Baruk (que na época eu ainda associava a um cantor de black music e hoje tanto ele como os outros citados tem se mostrado muito mais do que apenas cantores de black music...). O Dan virou pra mim e disse: "Ei, você conhece o Fred Hammond?" num dia de futebol ali na quadra da Igreja Metodista em Vila Mazzei. Eu disse que não (não associei o nome à voz que já tinha me deixado de queixo caído no Comissioned) e fui atrás de conhecer o músico. Dali em diante, Fred Hammond tem sido meu maior modelo de compositor e produtor dentro da cena Gospel Internacional. Além disso, ele também é extremamente dotado como cantor com aquele timbrão cavernoso e um fraseado único, inimitável. Não dava pra perder a oportunidade de vê-lo ao vivo! Lá conheci o Fred Hammond "worship leader". Em outra língua, ele fez com que ali naquele estacionamento de Ginásio poliesportivo, quase uma dezena de milhares de pessoas se prostrassem em adoração e entrega ao Senhor num dos momentos mais significativos de Louvor e Adoração de que já participei na vida! O tradutor contratado do evento bem que tentava traduzir (e muito bem por sinal), mas a galera respondia imediatamente à direção do cara. Coisa do Espiírito Santo que traz essa línga comum que é o Louvor e a Adoração genuína!
Uma alegria imensa ver um dos grandes em ação. Uma banda impecável, um trio de BGVs exelente, arranjos e animais e aquela pegada instrumental realmente rara de se ver na vida! Tive a oportunidade de ir aos backstages onde (pra meu completo assombro) o cara me reconheceu dos papinhos com os quais eu o incomodo no Twitter me chamando de "Jonas, my tweet guy!"... Relevem: coisa de fan mesmo! Eu assumo que tieto! Apesar de que foi ele mesmo a me enviar uma DMzinha bastante prosaica perguntando se a corrente elétrica por aqui era 110 ou 220. Consegui um rápido papinho com o mestre, algumas fotos com "my tweet guy" e com os integrantes da banda. Coisa de fan!
Musicalmente, eu sabia que meu feriado ainda não tinha acabado: tinha o lançamento do EP do meu aluno celebridade no Domingo. Cansadaço, com as costas semi-arriadas eu me dirigi ao CCJ da Vila Nova Cachoerinha pra me juntar a mais umas quase 6 mil pessoas que sem TV, sem Jabá de rádio, sem esquema de divulgação atenderam a lógica de guerrilha urbana do Laboratório Fantasma e foram pra lá. Fizeram bem em ir. De lá de New York os produtores do EP Kslaam e Beatnick vieram pra tocar junto com o Leandro, o Rael da Rima o DJ Nyac e outros convidados incríveis como MV Bill e Izzy Gordon. Muito bom! Festa da boa... Meu pai contava das tais festas dos anos 70 onde os caras que rodavam os Vinis eram como arautos da música boa e traziam as coisas mais deeps possíveis pra galera dançar na rua ou na pista! Eu me senti numa dessas festas e fui lá ver o show no meio do povo igual fiz no do Fred mesmo tendo a tal pulseirinha VIP. Uma energia absurda! Dançante total! Um RAP novo, musical, sem frescura e sem pose de bandido mas também que não faz cara de bonzinho e faz a galera do gueto ir pra cima do Sistema com cara de mau, mas com idéia na cabeça e vontade de vencer pelo certo!
Passou um garoto do meu lado com uma camiseta do Sabotage, uma mochila surrada e contando um dinheiro meio amassado nas mãos. Não hesitei: cheguei nele e perguntei quanto era. Ele respondeu: "Cinco conto!" -eu disse:"Vê um aí!". A cena parece muito com qualquer coisa de errado, né? ZN, show de RAP, dinheiro pouco assim... Era o EP "Doozicabraba e a Revolução Silenciosa"! Nada de droga. Nada de ilícito! Era minha "cópia única Nº 229966" do álbum.
Emicida tocou durante horas e horas. Tocou TUDO e durante "Triunfo" eu gritei forte com a galera "A rua é nóiz!"

Musicalmente, um dos fins de semana mais estimulantes da minha vida!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Captivo

          Depois de um longo e tenebroso inverno, eis-me aqui blogando novamente!
Foram tempos de muito trabalho e produção, mas agora quero ressucitar este humilde bloguinho e, quem sabe até repaginá-lo!
Com muita alegria eu retomo minha atividade aqui comentando uma linda produção Teatral que assisti no ultimo fim de semana: O musical “Captivo”.
Confesso que fui assistir sem grandes expectativas. Não conhecia o trabalho do produtor (o competentíssimo Daniel Moraes) e só tinha algumas referências sobre o trabalho das diretora e coreógrafa Vivian Lazzerini e Maiza Tempesta, respectivamente.
Como é bom ser surpreendido com qualidade e arte dessa natureza! Trata-se de um espetáculo de dança executado por um elenco afinadíssimo com repertório atualíssimo e escolhido a dedo a fim de apresentar a trama e sua densidade. Você nem percebe tartar-se de um espetáculo cristão até quase o fim da peça. Vemos expresso no palco e nos recursos de video-arte utilizados as tramas escravizadoras e alienantes dos sistemas do cotidiano em sua máxima expressão. A sutileza com a qual o autor associa estas tramas à ação do mal é brilhante e abre mão de dos lugares comum que geralmente vemos no teatro cristão contemporâneo, comprovando minha desconfiança de que dessa forma se obtém efeitos ainda mais radicais e duradouros no imaginário do público. A coreógrafa faz dançarinos parecerem bonecos nas mãos de títeres assombrosos de maneira a nos fazer pensar: quem orquestra nossas ações? Quem está por trás da briga de trânsito? Quem dirige a mão daquele que violenta outro ser humano? Sem tirar a responsabilidade do individuo, o espetáculo mostra que há interesses e forças ocultas que semeiam a morte, cabendo a cada homem e cada mulher escolher de quem quer ser cativo: do Amor ou da Morte. As personagens que encarnam no palco estes conjuntos de forças tem a marca de uma direção atenta a detalhes! O vocabulário gestual, a voz, a caracterização de Walter Paz assusta desde sua primeira aparição no espetáculo. Coisa boa de se ver! Rapaz jovem, atuando com intensidade de ator cheio de tarimba. O controle muscular preciso de suas feições e de todo o resto do corpo dão uma credibilidade sem tamanho ao papel que Walter tem de carregar durante o espetáculo.
Luz, som, o reforço áudio-visual, enfim... Tudo na medida a fim de proporcionar um espetáculo intenso, direto e sutil ao mesmo tempo. Ponto para a Arte portando a voz do Evangelho. Quem ganha é o Reino de Deus!